Prefácio

          Escrever o prefácio de uma obra não é uma tarefa fácil.  A tarefa se torna ainda mais difícil quando se trata de um livro escrito por vários autores e autoras, composto de doze capítulos, que perpassam por temas pungentes e de extrema relevância na atualidade. Dado isso, me sinto realizando uma delicada tarefa e receosa de que não a cumpra de forma honrosa. Que me desculpem os autores e as autoras se meu prefácio não estiver à altura do valor que encontrei em cada um dos capítulos.

          Como já nos indica o título “Sentidos em Gestalt-terapia: novas vozes, outros olhares”, o livro organizado por Lázaro Castro Silva Nascimento e Kamilly Souza do Vale tem a proposta de visibilizar autoras e autores que trazem contribuições inovadoras ao campo conceitual e técnico dessa abordagem, se debruçando sobre temas pouco tratados nos livros publicados em Gestalt-terapia no Brasil. A riqueza e a profundidade com que temas tão diversos são tratados me fascinou e me fez ficar absorta nas páginas do livro; creio que será exatamente a mesma experiência que os leitores viverão diante da obra em questão.

          O primeiro capítulo escrito por Lázaro Castro traz reflexões provocativas sobre o que podemos ou não considerar Gestalt-terapia. No diálogo que Lázaro traça com seu leitor, o mesmo aponta a não homogeneidade conceitual que embasa a prática dos profissionais desta perspectiva psicoterápica. Então,  Lázaro busca ao longo do capítulo elucidar o que considera os fundamentos conceituais e teóricos da Gestalt-terapia e trazê-los a nós em um texto claro, construído sobre sólidas referências teóricas.

         O segundo capítulo é uma contribuição valiosa de Kamilly Vale ao campo da psicoterapia de casais em Gestalt-terapia. Kamilly desenvolve o texto a partir de sua própria experiência de trabalho com casais, tanto teórica quanto prática, nos trazendo um alerta do grau de violência que é encontrando usualmente no relacionamento íntimo e que se reflete em modelos comunicacionais pouco cuidadosos entre as partes do casal. Kamilly constata que a comunicação está muito além do que é meramente dito e o discurso entre casais permanentemente atravessado pelas influências culturais.  

          No terceiro capítulo encontramos um belíssimo texto tecido a seis mãos e que se debruça sobre o tema da felicidade dentro do ponto de vista da Gestalt-terapia. Os autores Patrícia Yano, Francisco Soares Neto e Mariana  Andrade partem da constatação de que a busca pela felicidade, e pela compreensão do significado da mesma, é secular. No entanto, o tema não tem sido objeto de ampla reflexão nas obras de Gestalt-terapia, tarefa à qual se propõe os autores.

          A autora Mariana Pajaro desenvolveu o quarto capítulo a partir das inquietações vividas na prática clínica com crianças. Mariana relata sua busca por maior aprofundamento teórico-técnico, permeada por um sensível testemunho de experiências vividas em sua clínica nas quais descobriu a importância de entrar em contato com a criança que um dia ela foi.

          O quinto capítulo versa sobre o tema do trauma e a autora nos conta sobre seu percurso profissional, no qual buscou técnicas específicas que têm como base os conhecimentos das neurociências. Simone Dreher defende o ponto de vista de que o trabalho com traumas em Gestalt-terapia pode ser enormemente enriquecido pela aproximação com os estudos contemporâneos das neurociências, apresentando alguns conhecimentos que adquiriu nesse intercâmbio que se propôs a fazer.

          No sexto capítulo nos deparamos com mais um tema tocante: o processo de elaboração do luto decorrente do fim de uma união afetiva. Keila Santos, partindo da constatação de que o número de separações e divórcios é crescente na sociedade contemporânea, traz contribuições importantes sobre o tema, obtidas por meio de uma cuidadosa pesquisa bibliográfica, sob o prisma da Gestalt-terapia.

          Ao chegarmos ao sétimo capítulo, escrito por Hayanne Alves e Wanderlea Ferreira, novamente somos colocados frente a frente com um tema impactante no que diz respeito as possibilidades e dificuldades da prática do gestalt-terapeuta no sistema prisional brasileiro. A ação profissional em um contexto tão adverso é apontada, pelas autoras, como de extrema relevância e a visão de ser humano da Gestalt-terapia pode servir como suporte para uma prática em que os aspectos criativos do homem são valorizados.

          Lívia Arrelias, no oitavo capítulo, denuncia a quase inexistência de discussões sobre as existências pretas e indígenas em Psicologia, de maneira ampla, e em particular na Gestalt-terapia. A autora reflete sobre o quanto o modo elitista do desenvolvimento da Psicologia no Brasil se refletiu em práticas psicológicas discriminatórias e socialmente excludentes.

          No capítulo nove encontramos o relato de uma pesquisa desenvolvida a partir de perfis de usuários do aplicativo Grindr, um aplicativo de encontros para homens. Paulo Barros identificou um perfil de homem ideal preconceituoso na população estudada, verificando concepções homofóbicas e misóginas, mesmo entre homens que se relacionam com homens. A partir daí, reflete sobre os conceitos de introjeção e fronteira de contato na Gestalt-terapia.

          O décimo capítulo foi redigido por Gabriely Garcia, Tainá Tomaselli e Ana Carolina Galo. As autoras escrevem sobre a importância da música em nossas vidas e, em especial, na utilização desta como recurso terapêutico por musicoterapeutas ao longo da história. Partindo da integração teórica entre a profissão da Musicoterapia e a Gestalt-terapia constroem uma proposta de Gestalt-Musicoterapia ou Musicoterapia Gestáltica.

          O processo de luto durante a pandemia de COVID-19 de Heloá Maués e Michele Moura é o tema do penúltimo capítulo do livro. As autoras consideram a delicadeza da situação em que vivemos na qual o direito de vivenciarmos o luto e os rituais de despedida dos entes que amamos nos tem sido tirado não só pelas dificuldades próprias à pandemia, mas também por uma ausência de políticas governamentais apropriadas ao enfrentamento da mesma.

          Chegamos então ao capítulo de encerramento no qual, mais uma vez, somos confrontados com um tema de grande relevância que é pensar sobre a experiência da vergonha calcada nos conceitos da Gestalt-terapia. Larissa Carvalho buscou compreender o processo vivenciado por uma pessoa envergonhada e as implicações da moralidade social.

          Daqui em diante, fica por conta do leitor o cuidado na leitura e a abertura para a reflexão que o livro poderá proporcionar. Espero que todos possam usufruir de tão rico material organizado no livro, tanto quanto eu o fiz.

Patricia Valle de Albuquerque Lima

 

Gestalt-terapeuta e Psicóloga.

Doutora em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Docente do curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Sentidos em Gestalt-terapia:

Novas vozes, outros olhares

Como citar:

 

ABNT

NASCIMENTO, L. C. S.; VALE, K. S. Sentidos em Gestalt-terapia: novas vozes, outros olhares. Ponta Grossa: Atena, 2020. DOI: 10.22533/at.ed.552201609

APA

Nascimento, L. C. S., & Vale, K. S. (2020). Sentidos em Gestalt-terapia: novas vozes, outros olhares. Ponta Grossa: Atena. Recuperado de https://www.finersistemas.com/atenaeditora/index.php/admin/api/ebookPDF/3500

© 2020 por Lázaro Castro Silva Nascimento & Kamilly Souza do Vale 

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